Quando a cidade começava a dormir e as luzes dos apartamentos iam se acendendo uma por uma, três gatos caminhavam pelas calçadas ainda quentes do dia.
Tico era rajado e magro, rápido como vento entre os becos.
Amora tinha pelos pretos brilhantes e olhos atentos que observavam tudo.
E Fubá era amarelinho, desajeitado e sempre faminto.
Todas as noites eles percorriam as ruas juntos procurando comida, cantinhos quentes e aventuras pequenas que só os gatos conhecem.
Às vezes dormiam em caixas de papelão atrás da floricultura.
Às vezes no telhado da lavanderia.
E, nas noites frias, perto da saída quente do metrô.
Mas havia uma coisa que sempre fazia os três diminuírem o passo.
As janelas dos apartamentos.
Lá dentro, eles viam gatos enormes e fofinhos dormindo em almofadas macias. Alguns usavam coleiras brilhantes. Outros tinham potes cheios de comida colorida e brinquedos espalhados pela sala.
Certa noite, os três pararam diante da janela de um prédio baixo.
Dentro do apartamento, um gato branco dormia esticado num sofá tão macio que parecia uma nuvem.
— Olha só isso… — murmurou Fubá. — Ele deve comer dez vezes por dia.
Tico observou o gato bocejando sem pressa.
— E nunca toma chuva.
Amora inclinou a cabeça.
— Nem precisa procurar abrigo quando faz frio.
Os três ficaram olhando em silêncio.
Lá dentro tudo parecia confortável. Seguro. Calmo.
O gato branco acordou devagar, caminhou até um pote cheio de ração, comeu um pouquinho… e voltou exatamente para o mesmo lugar no sofá.
Então ficou olhando pela janela.
Olhando para a rua.
Olhando para eles.
Fubá se aproximou do vidro.
— Será que ele queria sair?
Tico deu de ombros.
— Talvez ele tenha medo.
Amora continuou observando.
O gato do apartamento encostou a pata no vidro. Depois viu uma mariposa passando do lado de fora e acompanhou seu voo com os olhos cheios de curiosidade.
Mas não podia ir atrás dela.
A janela estava fechada.
Os três seguiram andando.
Subiram em muros, atravessaram telhados, correram atrás de folhas levadas pelo vento e dividiram uma sardinha encontrada perto do mercado.
Mais tarde, sentaram-se no alto de um prédio para observar a cidade inteira brilhando abaixo deles.
O vento bagunçava seus pelos.
Lá longe dava para ouvir música, buzinas e alguém rindo numa varanda.
Fubá suspirou.
— Acho que seria bom ter comida fácil todo dia…
— Seria — concordou Tico.
— E dormir quentinho também — disse Amora.
Por alguns segundos, nenhum deles falou nada.
Então Tico abriu um sorriso de gato.
— Mas amanhã eu quero descobrir o que existe depois daquela avenida enorme.
Amora levantou as orelhas.
— E eu quero explorar aquele telhado azul perto da praça.
Fubá pensou um pouco.
— Eu quero achar o restaurante que joga peixe fora às sextas-feiras.
Os três começaram a rir.
Porque perceberam uma coisa importante.
Os gatos das casas tinham conforto.
Mas eles tinham o céu inteiro.
Tinham os caminhos desconhecidos, os cheiros novos, os telhados secretos, as aventuras inesperadas e a liberdade de escolher para onde ir.
E talvez passassem frio às vezes.
Talvez sentissem fome em alguns dias.
Mas cada noite era diferente da anterior.
A cidade era deles.
Então os três se enroscaram lado a lado no topo do prédio, aquecidos pela amizade e pela brisa da madrugada.
Acima deles, as estrelas brilhavam livres no céu.
E antes de dormir, Amora sussurrou:
— Acho que a melhor cama do mundo ainda é aquela onde a gente pode acordar e escolher para onde vai.
Os outros dois concordaram baixinho.
E ali, no coração da cidade adormecida, os três gatos livres fecharam os olhos e dormiram tranquilos.





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